sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

INVASÃO II

Homem de Ferro com Homem de Pedra,
A Coisa. Vêm me oferecer ajuda!
- Robbin diz: “pelas barbas de Judas!”
 E o Homem Invisível nada medra!

Batman, o Homem Morcego, qual quem redra,
Convoca o Super-Man p’ra que me acuda!
Em cenas oníricas, quase mudas,
O Homem Mola dali, não se apedra.

O Capitão América com seu escudo,
Vem me livrar também daquilo tudo!
Com raiva, o Incrível Hulk rasga a calça...

Homem Pássaro voa livre no espaço,
Imitando assim o nosso Homem de aço,
Que seu atlético vôo também ele alça.    


Miguel de Souza

domingo, 3 de dezembro de 2017

SANTA BÁRBARA

                
                      04 de dezembro, dia de Santa Bárbara.

Oh, Santa Bárbara, Mártir e Virgem:
Padroeira das trovoadas, tempestades;
Livrai-nos dessas vis atrocidades,
Que se acometem desde Vossa origem.

Fazei com que o bom tempo não se tinja
De negror pelo mapa da cidade, e
Que diante de Jesus, com Vossa autoridade,
O pedido por nós não se restrinja...

Oh, Santa Bárbara, querida e fiel, a
Reinar incólume nas plagas do céu,
Intercedei por nós junto a Jesus!

Abrandai, Oh, Gloriosa Virgem Santa,
Das aflições perturbadoras, tantas,
Concedendo-nos força, fé e luz!
Miguel de Souza

sábado, 25 de novembro de 2017

FRUTAS DA MINHA INFÂNCIA

IV.Goiabarana

Imponente ao pé da cerca
Com esverdeadas abas...
Tem certeza, não é goiaba?!
Vou tratar do assunto acerca
Dessa prima muito próxima
Da goiaba, a goiabarana.
Tinha um gosto bem bacana
Que comia e achava ótima!
Mas, para saboreá-la,
Carecia certo roubo...
Da infância, o primeiro arroubo,
Pelo prazer de degustá-la!
E nunca mais, pude enfim,
Sentir seu sabor assim!

Miguel de Souza
In: Chibé na cuia

domingo, 19 de novembro de 2017

REAÇÕES DE OLAVO BILAC

Julho, 19 - Na livraria José Olympio, a conversa com Órris Soares recai sobre Da Costa e Silva, falecido há pouco. pergunto-lhe se conheceu o poeta, e ele responde:
          - Fomos amigos e contemporâneos no Recife. Em 1906 ou 7, presenciei uma cena que jamais contei a ele. Naquele ano passaram pelo Recife três celebridades a bordo de um navio que vinha da Europa e seguia para Buenos Aires. A primeira era um cavalo de raça, que custava 800 contos de réis. A segunda era Sarah Bernhardt, ainda sem perna artificial, pois a amputação se deu em 1915. E a terceira era Olavo Bilac. Então, disse-me o diretor do Jornal Pequeno. "Seu Órris, você que arranha francês, vá a bordo e procure entrevistar a divina Sarah." "Pois não." Entrei no navio e barraram-me o acesso à atriz. Insisti, e o secretário foi inflexível. Desanimado, tentei ver o cavalo. Mas ele também estava rodeado de admiradores e cuidados, e não pude aproximar-me. Restava o poeta. João do Rio, também de passagem pelo Recife, e a quem eu já conhecia do Rio de Janeiro, levou-me até ele. Estávamos os três conversando quando chegou um rapaz de olhos divergentes e disse a Bilac: "Mestre, eis aqui o meu livro Sangue, que acacba de aparecer. "Disse mais duas ou três palavras e retirou-se, deixando o volume nas mãos dele. Bilac adiantou-se, ergueu a mão e, dizendo: "Poetas e bananas só produzem doenças no Brasil", lançou o livro ao mar.
          De passagem, retifico que o fato deve ter ocorrido em 1908, ano de publicação de Sangue.
          - Em 1915 - prossegue Órris - publiquei uma peça de teatro, A Cisma. Peguei alguns exemplares e fui oferecer aos grandes do tempo. Encontro Bilac na rua e entrego-lhe o volume. Ele recebe amavelmente e diz: "Vou ler este seu livro com o mesmo apreço e simpatia que li os anteriores..." Eu nunca tinha publicado nada antes.
          - Em 1917, plena guerra européia, estávamos Paulo da Silveira e eu na Lopes Fernandes - uma casa de refresco que havia na Avenida Rio Branco. Chega Bilac, e Paulo convida-o para sentar-se à nossa mesa. Ele aceita, e Paulo interpela-o sobre a guerra. "Não me fale de guerra, se por acaso você for partidário da Alemanha", retruca o poeta. "Eu detesto a Alemanha. Detesto Goethe, detesto Wagner, detesto chucrute...".
          Última e implacável revelação de Órris sobre o Príncipe dos Poetas:
          - Um dia, eu e Heitor Lima conversávamos sobre Augusto dos Anjos, de cuja morte eu acabara de ter notícia por um telegrama. Aparece Bilac e pergunta sobre o que estávamos falando. Heitor conta-lhe que era sobre a morte do poeta Augusto dos Anjos. "E que poeta era esse?", indaga Bilac. Como resposta, Heitor diz um poema de Augusto. Bilac ouve e comenta: "Pois eu acho que ele devia ter morrido antes de escrever uma barbaridade dessas."

Carlos Drummond de Andrade
In: O Observador no Escritório
P. 90/91

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

HOMENAGEM

Neste dia 16 faria aniversário a minha querida amiga Ana Zélia da Silva. Autora do livro de poemas MULHER! CONQUISTA FÁCIL!..., ela soube traduzir em poemas as mazelas que nos circundam, que nos rodeiam. Mulher de uma verve impressionante! Autora de: Ah! Se eu tivesse tido chance! ( uma obra-prima!), Mulher! É o bicho!... O que sou, Vício, A mensagem da vela... entre outros formidáveis poemas.

O QUE SOU.

Orgulhosamente. MULHER.
Vaidosamente. CABOCLA.
Psicologicamente: REBELDE, ORGULHOSA,
VAIDOSA, MULHER.

Tenho dois nomes de mulher.
Ao nascer na certidão recebi um número, passei a ser numeral.
O fantasma me persegue em tudo.

Na escola desde a matrícula, a chamada na classe é em número,
perde-se a identidade pessoal.
CI, CPF, Conta bancária, funcional...
Os números me perseguem. Sou humana, mortal.

Há professores que ousam trocar o nome de
cada aluno por números.
Número um, dois, três...

Com a morte, receberei três números.
Um no atestado de óbito,
outro no RG do cemitério e um número último,
o da sepultura.

É a vida.

Ana Zélia
In: Mulher! Conquista fácil!...
P. 31 

sábado, 11 de novembro de 2017

Dezembro, 29

- Esse diabo de Baudelaire, dizendo que a inspiração consiste em trabalhar todo dia. E onde fica a minha preguiça de intelectual, que se imagina produtora de grandes obras quando a inspiração for servida?

Carlos Drummond de Andrade
In: O observador no escritório
P. 64


 A MUSA VENAL

Ó musa de minha alma, amante dos palácios,
Terás, quando janeiro desatar seus ventos,
No tédio negro dos crepúsculos nevoentos,
Uma brasa que esquente os teus dois pés violáceos?

Aquecerás teus níveos ombros sonolentos
Na luz noturna que os postigos deixam coar?
Sem um níquel na bolsa e seco o paladar,
Colherás o ouro dos cerúleos firmamentos?

Tens que, para ganhar o pão de cada dia,
Esse turíbulo agitar nas sacristias,
Entoar esse Te Deum que nada têm de novo,

Ou, bufão em jejum, exibir teus encantos
E teu riso molhado de invisíveis prantos
Para desopilar o fígado do povo.

Charles Baudelaire
In: Las flores del mal (As flores do mal)

sábado, 4 de novembro de 2017

SÃO FRANCISCO

CONVERSA ÍNTIMA

Meu amigo Francisquinho,
sou ainda um animal
selvagem e agressivo,
desce do alto aonde estás
e vem até aonde eu vivo.
Conversavas com os
 pássaros, peixes, leões,
conversa também comigo,
serão momentos tão bons,
Tu, me explicando o sentido
do amor e da humanidade,
eu, te contando o que sinto:
meus fracassos, minhas revoltas,
o medo que tenho, não minto,
de enfrentar a humanidade
que ao voltares ao céu
levarás mais uma graça,
pois, me tornarás tão passiva,
como a mais tranquila ovelhinha
do rebanho de Jesus.
Francisquinho, meu amigo,
vem agora, estou sozinha,
tenho a noite por abrigo,
preciso da tua luz.
Deixaste glórias, riquezas,
para seres o mais pobre
entre os pobres de Assis.
Eu sou pobre de ternura,
pobre sou de esperança,
conversa comigo meu Santo
como se eu fosse uma criança
de alma, de lírio entreaberto,
que a Tua palavra, prometo,
não se perderá no deserto.
Sei que Foste meio louco,
com ideias liberais,
dava tudo o que era Teu,
para a mágoa dos teus pais.
Dá-me agora o teu amparo,
teus exemplos e conselhos,
como amigo e doce irmão.
Não vou cair de joelhos
nem ficar em contrição,
mas sim, olhar nos Teus olhos,
segurar firme Tua mão,
e ficar junto a Ti,
meu amado Francisquinho,
até aprender contigo
a ser generosa e humilde
a fim de seguir o teu caminho.

Violeta Branca
In: Reencontro
P. 63/64